A arena estava limpa. O sol do meio da tarde banhava o mármore em uma luz dourada. No centro, eu e Saphira nos encarávamos a vinte metros de distancia, a tens?o entre nós estalando no ar como eletricidade estática. A Grande Final estava prestes a come?ar.
— é ISSO Aí, GALERA! O MOMENTO MAIS AGUARDADO DO SéCULO! — o Locutor berrava, a voz trêmula de tanta emo??o. — As figuras mais importantes do reino de Eldória, incluindo nosso respeitado Comandante-Geral Zigles Heisenberg nas varandas VIPs, est?o aqui para testemunhar a história! Dois monstros! Um destino! Que os deuses aben?oem este combate! VAMOS INICIAR... A BATAL...
BOOOOOOM!
A palavra do juiz foi engolida por uma explos?o ensurdecedora.
O céu ensolarado de Eldória n?o apenas escureceu; ele foi rasgado ao meio. A massiva barreira mágica de prote??o que cobria o teto do estádio estilha?ou-se como vidro barato, chovendo milhares de cacos de energia sobre as arquibancadas.
Uma press?o gravitacional asfixiante e gelada despencou sobre a arena, for?ando os alunos mais fracos a caírem de joelhos vomitando.
Atrás de mim, nos port?es de entrada dos competidores, uma fuma?a densa e negra come?ou a jorrar. Olhei aterrorizado enquanto dezenas de cavaleiros de elite da coroa, homens blindados com armaduras pesadas, eram literalmente arremessados e jogados pelos ares como bonecos de pano sem vida, batendo nas paredes e manchando a pedra de sangue.
E ent?o, do meio da névoa negra e da poeira de mármore destruído, passos lentos e calmos ecoaram.
Os meus olhos focaram na fuma?a. O meu cora??o, que batia em ritmo de torneio, de repente parou, congelou e afundou no est?mago. O ar faltou nos meus pulm?es.
Eu conhecia aquela silhueta. Eu via aquele sorriso sádico nos meus pesadelos todas as noites durante sete longos anos.
Era ele. O homem que destruiu a minha família.
Zack Wolford.
Ele usava um sobretudo escuro e rasgado, os cabelos negros caindo sobre os olhos loucos. Ele exalava uma aura t?o assassina que a areia ao redor das botas dele escurecia.
Antes mesmo que eu pudesse reagir, um raio de pura Magia de Luz ofuscante passou zumbindo pela minha orelha. Saphira n?o hesitou um milésimo de segundo. Ao ver o assassino da minha família, os olhos dela brilharam em fúria divina e ela disparou um ataque concentrado com poder para derreter um prédio de a?o, mirando direto no peito de Zack para obliterá-lo e me proteger.
A luz explodiu no alvo. A poeira subiu.
Mas, quando a luz baixou, Zack Wolford estava em pé, no mesmo lugar, sacudindo a poeira do ombro esquerdo de forma entediada. Ele nem sequer recuou um milímetro. A magia absurda dela simplesmente se desfez contra a pele dele.
— Ahhh! — Zack suspirou, abrindo um sorriso largo e insano, ignorando a Princesa e cravando os olhos escuros diretamente na minha alma. — Se n?o é o pequeno Igris... o meu sobrinho inútil. E agora, pelo o que os meus olhos veem, você tá comprometido?
Ele inclinou a cabe?a e apontou o dedo sujo de sangue para o meu peito. Naquele momento bizarro, percebi que ele conseguia enxergar fisicamente a fina linha mágica e prateada da Pedra da Dualidade que me conectava ao núcleo da Saphira. Ele viu o nosso vínculo.
— Um amorzinho de colégio... que patético — Zack riu, uma risada que me deu náuseas. A inten??o assassina dele fez a arquibancada inteira prender o f?lego de pavor. — Bom, n?o importa com quem você brinca de casinha. O seu pai já era. A sua m?e já era. E hoje... eu vou te matar e terminar o servi?o de sete anos atrás! Ent?o... vem brincar com o seu titio!
O mundo ficou mudo. O barulho do estádio sumiu.
A única coisa que existia na minha mente era a fúria. Todo o treinamento tático, a paciência e a frieza dos Circuitos Brancos foram temporariamente jogados no lixo pelo puro, corrosivo e fervente ódio.
Canalizei toda a minha For?a Base 240 nas pernas e dei um salto para frente. A explos?o de energia nos meus pés foi t?o violenta que criei uma cratera de três metros de profundidade no centro da arena de mármore.
Eu avancei contra ele com a velocidade de um míssil, brandindo a pesada Espada de Carvalho Negro.
— Ohh! — Zack provocou, mal movendo o corpo. — Ficou mais fortinho! Quando nos vimos da última vez na mans?o, você mal conseguia segurar um graveto sem chorar! Vamos ver até onde o lixinho chegou!
Zack ergueu a m?o direita. Do nada, um pequeno artefato em forma de cubo metálico escuro se materializou na palma dele.
Tentei usar o meu Olho Avaliador instantaneamente.
[ERRO DE SISTEMA. ARTEFATO N?O REGISTRADO NA BASE DE DADOS DE LEUNDERS.]
O aviso piscou em vermelho na minha vis?o. Antes que eu processasse a falha, desferi o primeiro golpe horizontal visando arrancar a cabe?a dele.
Zack n?o usou magia. Ele apenas ergueu o antebra?o nu e bloqueou o golpe direto da minha madeira maci?a infundida com for?a 80+.
CLANG!
O choque fez os meus ossos do bra?o vibrarem de dor. A defesa dele era monstruosamente dura. Nem Topázio, nem Saphira, nem os golens de pedra tinham uma densidade física t?o repulsiva. Ele n?o havia ficado estagnado em sete anos; ele havia se tornado um monstro incomparável.
Eu n?o parei. A técnica suprema que eu tinha passado dias desenvolvendo nas ruínas, a tática que eu guardei a sete chaves para usar e impressionar a Saphira na final, teria que ser usada agora. Para matar.
Zack bloqueou mais três golpes, sorrindo.
— Ohh! Ataquezinho novo de calouro? — ele debochou, bloqueando com uma perna. — Bom! Manda a ver! T? curio...
Aproveitei a guarda baixa e a distra??o arrogante dele.
— Primeiro Passo: Maré Imensa!
Canalizei a afinidade da água. Ao invés de cortar, a minha espada criou uma onda de press?o inercial massiva que bateu no bra?o dele e o desequilibrou, atordoando a postura dele por uma fra??o de segundo. Isso era exatamente o que eu queria. Sem perder a fluidez da água, usei o embalo para dar um giro reto de 360 graus no ch?o, mirando a quina da minha espada diretamente nos ossos da m?o esquerda dele para quebrá-la.
A lamina ia acertar. Mas ela cortou apenas o ar vazio.
Zack Wolford simplesmente desapareceu.
A habilidade maldita. Furtividade Absoluta. A mesma técnica covarde que a Organiza??o usava para apagar presen?as.
Mas eu n?o era mais a crian?a cega de Eldória.
— Instinto Superior! — gritei, sentindo a mana ser brutalmente drenada do meu núcleo.
O tempo desacelerou para uma rasteira fra??o de segundo. Eu vi o desfoque do corpo dele surgindo exatamente acima da minha cabe?a, caindo com um soco armado para quebrar o meu cranio. Mesmo exausto pela drenagem do Instinto, eu n?o recuei.
— Ah! Eu ainda n?o acabei com você, desgra?ado!
Emendei o combo no ar.
— Terceiro Passo: Redemoinho de água!
A minha espada girou acima de mim criando um furac?o de água de altíssima press?o para aparar e destruir o ataque dele.
Mas o pesadelo estava apenas come?ando. Zack n?o apenas cancelou a press?o do meu redemoinho com um movimento brusco do bra?o, como o cubo metálico na m?o dele de repente se derreteu e se transformou em uma longa, distorcida e pavorosa Espada Negra.
Enquanto ele caía em camera lenta na minha dire??o, a lamina dele emitiu um zumbido letal. A minha Percep??o gritou em agonia. Se aquilo me tocar, eu morro de forma irreparável. Eu n?o podia bloquear de frente. Redirecionei a mana. A água n?o para o impacto, ela desvia o fluxo! Rapidamente embuí toda a lamina de carvalho com água hiper pressurizada, transformando-a numa rampa escorregadia.
— Caraca! Espadinha de água agora? — Zack riu no ar. — Bom! Quero ver me parar!
Ele caiu na minha armadilha. A inten??o n?o era pará-lo. Quando a espada negra dele bateu na minha lamina de água, ela deslizou totalmente sem atrito, perdendo o alvo e cravando-se violentamente direto no ch?o de mármore ao meu lado.
A for?a absurda do golpe de Zack gerou uma onda de choque que rachou o estádio, criando uma cratera imensa. A poeira subiu, mas o que me aterrorizou n?o foi a for?a física dele.
Foi o que ele parecia estar sentindo. Ele estava brincando. Ele nem sequer estava suando.
Pulei para trás para ganhar distancia, mas o meu corpo travou. Onde a espada negra dele havia tocado no ch?o, Chamas Negras e espessas brotaram. Num raio de trinta centímetros ao redor da lamina de Zack, o próprio mármore sólido, o ar e as rochas come?aram a derreter, apodrecer e corroer com um chiado ácido.
A habilidade do artefato. Corros?o absoluta. E Zack estava imerso nas chamas negras sem que a própria pele sofresse um arranh?o.
Olhei para a minha espada de madeira, ofegante. Olhei para a magnitude do poder daquele monstro que destruiu o meu lar. Uma conclus?o matemática e fria atingiu o meu cérebro como gelo.
Love this novel? Read it on Royal Road to ensure the author gets credit.
A for?a que vi há sete anos n?o era nem a ponta do iceberg do potencial dele. Eu... eu n?o sou forte o suficiente para vencer esse cara. Os meus atributos n?o d?o conta. Pelo visto... hoje é o dia em que eu vou morrer.
Aceitei o meu destino por um décimo de segundo. Fechei os olhos. Pelo menos, vou ver vocês de novo, m?e... pai.
Zack sorriu de orelha a orelha e, num salto fantasmagórico usando as sombras, apareceu bem na minha frente. A espada negra dele desceu em um arco horizontal perfeito para rasgar o meu peito e queimar os meus órg?os.
Eu n?o tive tempo de levantar a guarda. O golpe foi fatal.
O som da carne sendo rasgada ecoou na poeira. O sangue respingou quente e vermelho no meu rosto em choque.
Mas n?o era o meu sangue.
Saphira Silford. Ela havia ativado a super velocidade, teleportando-se no limite do próprio corpo, e se jogou como um escudo humano bem na minha frente.
A pesada lamina negra de Zack acertou o ombro e o vestido dela num corte raso, mas cruel. Ela foi arremessada para trás com um grito de dor excruciante, caindo pesadamente no ch?o destruído da arena.
— SAPHIRA! — meu grito rasgou a minha própria garganta.
O choque congelou o meu sangue. No corte do ombro dela, pequenas chamas negras se agarraram à pele pálida, e a terrível corros?o come?ou a devorar o ferimento de forma lenta e agonizante.
A minha fraqueza. A minha estupidez de agir com raiva. Por causa da minha maldita inferioridade de nível, eu ia perder a minha família... de novo!
O desespero tentou me cegar, mas, no meio do panico e da vis?o turva pelas lágrimas, a voz rouca do meu mestre, Topázio, ecoou alta na minha cabe?a:
"O desespero mata, garoto. A calma e o gelo na mente s?o as únicas coisas que salvam vidas."
Engoli o grito. Lembrei do motivo real de eu estar levantando a espada. Eu n?o devia lutar pelo ódio de destruir o Zack. O ódio é cego. Eu devia lutar com a fúria fria do desejo de proteger quem sobrou e quem eu amo. O meu cora??o incendiou-se num nível que os meus próprios olhos brilharam com uma aura branca e ofuscante no escuro da fuma?a.
Respirei de forma profunda e ritmada. O meu foco atingiu uma afinidade incalculável pelo Sistema. N?o era um aumento de status ou XP vazio; era a ascens?o da pura e inabalável determina??o humana.
Era uma corrida contra o tempo. Se Zack n?o morresse agora, Saphira n?o seria curada.
Eu mudei a tática. A água fluía, mas o Fogo explodia. Era perigoso, era instável, mas era a velocidade crua que eu precisava.
Avancei como um raio branco. Para surpreendê-lo e quebrar a leitura corporal dele, disparei uma finta frontal envolta em Fogo caótico t?o rápida, barulhenta e absurda que Zack foi for?ado a recuar e desviar no susto, levantando os bra?os.
Enquanto a fuma?a de fogo cegava a vis?o dele, engatei a água.
— Falso Paraíso!
Criei a ilus?o reflexiva para atacar pelo ponto cego superior, visando dar uma concuss?o crítica direto no pesco?o dele para paralisar a medula espinhal.
Mas Zack era uma anomalia de guerra. Ele defendeu o ar, percebeu a finta a tempo e bloqueou. Imediatamente mudei o angulo da madeira, girando para atacar e estilha?ar a coluna vertebral dele pelas costas.
Com uma flexibilidade macabra, Zack deu um mortal para trás no ar, passando por cima da minha lamina, e tentou me decapitar na descida por trás.
Magia de água nos pés: deslizei lateralmente, escapando do corte por um milímetro de ar. Mudei a empunhadura da espada, injetei for?a máxima e desferi uma estocada direta e perfurante com o cora??o cheio de fúria direto no peito dele.
Zack n?o esquivou dessa vez. Ele apenas sorriu.
Ele levantou o artefato da Espada de Chamas Negras verticalmente na frente do peito, usando-a como um escudo negro e impenetrável de corros?o.
Quando a ponta da minha amada e inquebrável Espada de Carvalho Negro — a fiel companheira de Sentostela que aguentou monstros, golens e o Fantasma da Guilda — entrou em colis?o direta com as chamas negras do artefato dele, a física cobrou o pre?o do material inferior.
CRACK!
A madeira milenar gemeu e explodiu. A for?a e a corros?o partiram a minha espada ao meio. Metade da lamina queimou até virar cinzas no ar, espalhando farpas inúteis na areia. A minha arma havia morrido.
Fiquei segurando apenas o cabo lascado.
Zack Wolford deu uma gargalhada que ecoou pelo estádio destruído.
— O quê? Já acabou a brincadeira? — ele zombou, jogando a própria espada negra de lado, cravando-a no ch?o. — Como a sua medíocre arminha de madeira de garoto quebrou t?o fácil... vem! Vem tentar me matar de m?os vazias, pirralho!
Joguei o cabo quebrado fora e fechei os punhos.
O que se seguiu foi o massacre físico mais humilhante e agonizante da minha vida. Zack n?o era apenas um mestre com magia e espada; nas artes marciais cruas de assassinato, ele era uma máquina trituradora.
Mesmo com o meu Instinto Superior for?ando o meu cérebro a ler os movimentos dele em camera lenta, o meu corpo de doze anos simplesmente n?o tinha velocidade biomecanica para reagir. Eu bloqueava um soco, ele quebrava a minha guarda com uma joelhada. Eu tentava um chute de varredura, ele afundava o cotovelo no meu ombro. Eu recebia mil vezes mais golpes brutais do que o meu corpo podia aguentar ou desviar.
O meu sangue pintou a areia. O meu olho esquerdo inchou e se fechou. As minhas costelas choraram de dor. Eu estava sendo esmagado até a morte na frente da escola inteira, e ele estava rindo.
Cuspi um dente quebrado no ch?o. A barra de mana estava na reserva vermelha. Saphira estava gemendo de dor ao longe com o ombro corroendo. Eu n?o tinha escolha.
Se a biologia n?o dava conta, eu ia destruir a minha biologia para matá-lo.
Invoquei o Slot Exclusivo de Ultimato. Uma técnica suicida proibida.
— Aprimoramento Físico Extremo! — rugi, o sangue jorrando da boca.
Magia pura de Relampago Inverso penetrou violentamente no meu sistema nervoso central e no meu núcleo. N?o era fogo, nem água. Era uma descarga elétrica colossal que fritou os bloqueios de dor do meu cérebro e for?ou todos os meus músculos a trabalharem muito além de 100%.
A habilidade era uma lamina de dois gumes suicida. Se eu n?o tivesse o Nível 12 e a resistência óssea da Classe de Herói, o meu próprio corpo teria explodido em peda?os e eu estaria morto na hora.
Os meus músculos rasgaram internamente, mas a eletricidade estourou em feixes roxos e brancos ao redor da minha pele.
Zack piscou, surpreso com o clar?o elétrico. E esse foi o erro dele.
Com a acelera??o divina, o meu punho colidiu contra o peito dele antes mesmo que o cérebro dele registrasse o movimento.
CRACK! Três costelas de Zack Wolford estalaram e afundaram no peito dele.
Ele vomitou sangue escuro e arregalou os olhos.
A dor rasgava a minha carne de dentro para fora, mas eu n?o parei. Cego pelo ódio elétrico, avancei rugindo. Ele tentou revidar com os bra?os. Eu agarrei o bra?o direito e o esquerdo dele com as minhas m?os em curto-circuito.
Firmei a bota no peito dele afundado. Usei toda a For?a 240 somada ao peso absurdo do Relampago e puxei para trás num urro animalesco.
O som de carne, tend?es e ossos sendo brutalmente rompidos embrulhou o est?mago de quem ainda tinha coragem de assistir na arquibancada. Com uma selvageria que chocaria os piores dem?nios, eu literalmente arranquei os tend?es do bra?o esquerdo dele, destruindo a junta, pendurando o membro solto como um trapo sangrento.
Zack berrou um grito agudo de agonia indescritível, caindo de joelhos no ch?o, os olhos revirados pela dor, banhado no próprio sangue.
Eu levantei o punho faiscante. Era a hora. Eu ia esmagar o cranio dele na areia e terminar o que a Organiza??o come?ou há sete anos. O golpe desceu...
ZUMBIDO.
A milímetros de esmagar o rosto de Zack, uma escurid?o absoluta e fria congelou o ambiente. A minha m?o parou no ar. O feixe elétrico do meu bra?o sumiu.
A minha barra de mana n?o apenas havia esgotado pelo uso abusivo do aprimoramento; ela havia sido esmagada por uma press?o atmosférica alienígena.
Levantei o rosto ensanguentado. A dez metros de nós, flutuando a poucos centímetros do ch?o, estava uma figura sombria e encapuzada. O ar ao redor dele cheirava a cemitério e desespero puro.
A aura, a energia e a press?o biológica que aquele homem irradiava era absurdamente mais densa, asfixiante e monstruosamente superior do que a de Zack Wolford ou de todo o corpo docente de Eldória junto. Era a presen?a de uma Catástrofe Continental viva.
Saturn Kaiser. O Necromante Supremo.
A press?o gravitacional do homem era t?o pesada que os meus joelhos falharam e bateram no ch?o de mármore. Eu n?o conseguia respirar. A vis?o ficou preta. Eu estava prestes a desmaiar de dor e exaust?o mágica, mas a Super Recupera??o, rodando freneticamente nas minhas veias, injetou adrenalina suja no meu cora??o e me for?ou a ficar de olhos abertos para assistir à humilha??o.
Eu tentei me arrastar para cima da figura encapuzada.
Saturn Kaiser olhou para o meu corpo quebrado com a mesma empatia que se olha para um inseto esmagado no sapato. Ele balan?ou levemente os dedos cobertos por anéis de ossos.
Uma fuma?a negra envolveu o corpo ensanguentado e derrotado de Zack Wolford. E no piscar de olhos de uma coruja, num estalo seco e silencioso, ambos simplesmente sumiram no ar, evaporando da existência como se nunca tivessem pisado na arena.
Teletransporte dimensional exato. Uma magia sombria, antiga e proibida, que eu sinceramente nem sabia que existia nas leis da física desse mundo.
A press?o insana desapareceu do estádio instantaneamente, deixando apenas silêncio e cheiro de destrui??o.
Eles fugiram, mas o meu desespero n?o tinha acabado.
Desliguei a fúria da minha mente e rastejei pateticamente, quebrado e sangrando pela terra revolvida, até alcan?ar o corpo caído da minha namorada.
Saphira estava inconsciente, a respira??o fraca. O corte negro da lamina de Zack ainda chiava no ombro dela, a terrível corros?o avan?ando milímetro a milímetro.
Chorando de alívio por ela estar respirando, concentrei a ínfima, ridícula e última gota de mana branca que os meus circuitos haviam restaurado passivamente. Ativei o meu recém-descoberto Elemento Cura.
Coloquei a m?o sobre a pele corroída dela. A sorte divina foi que a chama da espada do assassino era projetada e n?o havia penetrado profundamente nos órg?os vitais; a corros?o sombria era dolorosamente lenta. A minha luz purificadora de água e Cura lavou o corte negro, neutralizando o ácido das trevas, fechando a pele danificada até restar apenas uma cicatriz avermelhada e quente.
Eu caí de bru?os em cima do peito dela, respirando fundo e desmaiando de dor. Ela estava salva. Eu estava vivo. Mas eu havia perdido a guerra de forma humilhante.
[Um Dia Depois]
Acordei deitado e enfaixado como uma múmia em uma cama dura na Ala Médica fortemente vigiada e silenciosa da Academia. Saphira estava adormecida, curada, numa maca ao lado da minha, com os dedos dela entrela?ados frouxamente nos meus sob o len?ol.
As notícias que correram pelas enfermeiras da coroa naquela manh? chuvosa me deixaram gelado, me fazendo encarar o teto branco do hospital com os dentes trincados de raiva.
Durante a invas?o explosiva e o caos do meu duelo frenético na arena contra o assassino inferior... o verdadeiro objetivo do ataque de Saturn Kaiser às varandas reais foi cirurgicamente alcan?ado.
O poderoso e severo Comandante-Geral de Eldória, Zigles Heisenberg, o meu tio de sangue, havia sido covardemente atacado pelas costas pelo Necromante, brutalmente morto e o corpo dele fora sumariamente levado pelas trevas. Até aquela hora, os magos rastreadores n?o haviam achado sequer um rastro da energia ou do cadáver do General de Rank S. A capital do reino havia perdido a sua maior e mais forte muralha humana para o temido Exército das Sombras de Kaiser.
Para ser absoluta e brutalmente sincero comigo mesmo? Eu n?o derramei uma lágrima e n?o senti um pingo de remor?o pela morte suja de Zigles Heisenberg. Ele havia desprezado os meus pais e me tratado como lixo de nível inferior durante a infancia. Talvez a morte indigna tenha sido o que o karma sádico reservou para ele.
Mas a morte dele me esfregou uma dura, fria e cruel verdade no rosto quebrado e cheio de hematomas. A equa??o do mundo tinha mudado drasticamente.
Comparado ao poder massivo do meu tio Zigles, e à fúria sombria do assassino Zack Wolford... o misterioso monstro encapuzado, Saturn Kaiser, era absurdamente, incalculavelmente, centenas de milhares de vezes mais poderoso e intocável do que qualquer um que eu já tivesse visto respirar naquele continente.
O meu caminho havia sido cruelmente desenhado no sangue do estádio.
A partir daquele momento de derrota, no silêncio daquele hospital, eu selei o meu destino e o meu propósito final no cora??o. Eu iria treinar como um louco varrido, quebrar as leis do Sistema até o limite biológico e matar o Zack Wolford, custe o que custasse. E inevitavelmente, lá no fim dessa estrada sombria... talvez eu tivesse a terrível obriga??o militar de ter que enfrentar, peito a peito, a Morte Encarnada chamada Saturn Kaiser.
Olhei para a minha m?o enfaixada. Lembrei do barulho desesperador da madeira estourando contra o artefato inimigo.
A for?a bruta e as magias n?o bastariam. Primeiro, e antes de qualquer treinamento absurdo ou aumento de nível de atributos, eu precisava de uma lamina irreal que suportasse os meus golpes sem quebrar no impacto. Eu precisava de uma parceira de a?o vivo que aguentasse cortar o espa?o. Eu precisava ir até o ber?o da forja e da alta temperatura. Ao misterioso, fumegante e brutal Império dos Ferreiros: O Império de Grit?nia.
Saphira resmungou no sono, apertando fracamente a minha m?o.
A brincadeira de colégio militar havia finalmente e definitivamente acabado sob a areia da arena.
A nossa verdadeira e obscura jornada de sangue, ca?ada e vingan?a no mundo exterior estava prestes a ficar estupidamente mais longa e assustadoramente mais perigosa.
[FIM DO CAPíTULO 17]

