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Capítulo 16 - Semi final

  A fuma?a das lutas anteriores ainda pairava no ar da arena quando a multid?o voltou a enlouquecer. O sol da tarde castigava o mármore, mas a temperatura real vinha da tens?o das arquibancadas.

  — CHEGAMOS àS SEMIFINAIS, SENHORES! — a voz do Locutor ecoou, quase estourando os cristais de som do estádio. — Finalmente chegou o momento do duelo de legado! De um lado, o estrategista invicto: Igris Wolford Heisenberg! Do outro, a garota que carrega a determina??o do vento: Flora Rodan! Que comecem as apostas! JUIZ, AUTORIZE A BATALHA!

  O gongo soou com um estrondo metálico.

  Mas o barulho da plateia morreu em poucos segundos.

  Nos primeiros dez segundos de luta, nenhum de nós dois moveu um único músculo. O silêncio na arena ficou sufocante. éramos dois guerreiros congelados em nossas bases, com os olhos cravados um no outro, estudando o espa?o, a respira??o e o centro de gravidade.

  A minha Percep??o 80 apitou no fundo do meu cérebro. A aura de Flora era densa, afiada e inegavelmente forte. Talvez a purifica??o dos meus Circuitos Brancos tivesse deixado a minha leitura de oponentes muito mais sensível, mas eu sentia a pura for?a de vontade exalando daquela garota de cabelos curtos.

  Eu conhecia os boatos de Rodania, a terra natal dela. Flora nunca foi encarada como um prodígio por lá. A nobreza de sua família sempre a reprimiu, dizendo com todas as letras que as mulheres deviam focar apenas em casamentos políticos, ficar nos castelos e que jamais atingiriam posi??es altas no exército. Mas, ao descobrir os contos sobre a minha falecida m?e, Sara Heisenberg, Flora percebeu que o seu gênero n?o era uma limita??o, mas o Sistema opressor sim. Ela quebrou as correntes. Sem mestres que aceitassem ensiná-la, ela treinou sozinha. Ela forjou os próprios músculos nas florestas.

  De repente, quebrando o silêncio, come?amos a nos mover.

  N?o em linha reta, mas correndo em círculos concêntricos ao redor do centro da arena, medindo a acelera??o e o atrito das botas no ch?o. Flora era absurdamente rápida, mas ela logo percebeu o brilho calculista nos meus olhos: a cada volta que dávamos, eu aumentava a minha velocidade milimetricamente, empurrando-a para o limite cardiorrespiratório só na corrida.

  Depois de trinta intensos segundos de dan?a circular, nós travamos as botas no ch?o simultaneamente, levantando poeira. O aquecimento havia acabado.

  Assumi a minha postura de combate de Sentostela. Flora ergueu a espada de madeira, e eu me surpreendi genuinamente. Ela n?o tinha os ombros largos de um general, mas a postura dela era esteticamente impressionante e letal.

  Ela deu o primeiro passo. E foi um impulso explosivo em minha dire??o.

  Para os olhos destreinados da plateia burguesa, a investida dela foi um raio indetectável. Mas, para mim, com a minha velocidade de rea??o e as memórias da Espada do Rei Topázio, ela estava se movendo em camera lenta, mesmo sem eu ativar o meu Instinto Superior.

  Nossas espadas de madeira colidiram. Clack!

  No momento do impacto, a minha mente analítica leu a fraqueza dela como um livro aberto. Flora era genial, mas ela n?o tinha no??o de combate letal contra humanos. A postura dela, os angulos de corte, a forma como abria a guarda... eram movimentos instintivos desenvolvidos única e exclusivamente para sobreviver e matar monstros brutais e irracionais na selva, n?o para duelar contra um espadachim tático.

  Eu poderia ter tocado as costas dela ali mesmo e vencido em dois segundos, como fiz com o Gorgius.

  Mas eu n?o fiz isso. Eu me recusei. O esfor?o autodidata daquela garota para quebrar os preconceitos do mundo merecia mais do que uma derrota humilhante. Ela merecia a verdadeira heran?a da mulher que a inspirou.

  Eu decidi usar a semifinal como uma sala de aula.

  Dei um passo para trás e, de propósito, comecei a desferir golpes mais fracos, rítmicos e aparentemente lentos contra a guarda dela. Para a torcida, eu estava travando uma batalha épica e equilibrada, mas, na minha cabe?a, a troca??o estava sendo tediosamente calculada.

  Eu atacava a lateral dela, for?ando-a a fechar a guarda. Eu batia no joelho, obrigando-a a corrigir a postura das pernas. Eu era o professor invisível.

  Mas o que me chocou foi o talento monstruoso da garota.

  Enquanto eu a pressionava e a corrigia na base do impacto, ela n?o apenas resistia. Ela evoluía. A cada choque de espadas, a defesa dela ficava menos bestial e mais refinada. A memória muscular de Flora Rodan era uma aberra??o biológica, absurdamente superior à minha. Ela n?o precisava que eu explicasse a técnica em voz alta; o corpo dela assimilava o erro e corrigia a angula??o da espada em tempo real. Ela ficava mais rápida, mais letal e mais forte à medida que os segundos passavam. Ela era um gênio bruto sendo lapidado na porrada.

  Foi ent?o que ela sorriu, ofegante, os olhos brilhando com o calor da verdadeira batalha. Pela primeira vez na luta, ela abriu a boca e declarou uma técnica em voz alta:

  — Você é incrível, Igris! Mas eu n?o vou deitar! Habilidade de Espada: Passo Celestial!

  Uma aura de vento cortante estourou ao redor do corpo dela.

  Nesse exato momento, Flora deixou de ser apenas rápida para se tornar um borr?o contínuo. Mas o perigo real n?o era a velocidade. Os reflexos monstruosos dela foram afiados, mas tinha algo a mais... Mentira! Pensei, arregalando os olhos enquanto esquivava de uma estocada dupla que quase raspou o meu nariz. Ela está lendo os meus cálculos!

  O Passo Celestial n?o apenas aumentava drasticamente os atributos físicos dela, ele acelerava o raciocínio tático! Ela estava ativamente estudando as minhas fintas para encontrar os pontos cegos do meu contra-ataque. Ela estava lutando de igual para igual comigo no xadrez da esgrima.

  O estádio gritava de empolga??o com as dezenas de faíscas invisíveis da nossa colis?o. Mas, com a minha Percep??o agu?ada, eu notei o pre?o que ela estava pagando.

  Flora lutava no improviso, e manter aquela memória muscular genial trabalhando a 200% junto com o Passo Celestial estava derretendo as reservas de estamina dela. O rosto da garota estava banhado em suor. A respira??o saía curta, rasgando a garganta. Os bra?os come?avam a tremer pelo acúmulo de ácido lático.

  Enquanto isso, ancorado pelo meu Nível 12, pela minha For?a 240 e pelo meu treinamento suicida com Saphira e Topázio, eu n?o havia derramado uma única e solitária gota de suor. A minha respira??o estava perfeitamente calma. Eu estava num patamar biológico brutalmente superior.

  Eu precisava encerrar aquilo antes que ela desmaiasse de exaust?o e perdesse a dignidade perante a nobreza que tanto a odiava. A li??o havia acabado.

  Recuei três passos, abrindo distancia. Sorri para ela, demonstrando o meu respeito genuíno, e levantei a m?o livre. Meus Circuitos Brancos brilharam sob a pele.

  — Foi uma honra, guerreira! — eu disse. E ativei as minhas novas habilidades.

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  Disparei um Bridge de Fogo rústico contra o ch?o de mármore e, no exato mesmo milissegundo, disparei um Bridge da minha nova afinidade de água diretamente em cima do calor.

  A rea??o térmica foi violenta e imediata. Uma densa, quente e ofuscante nuvem de fuma?a de vapor estourou no centro da arena, cegando Flora, o juiz e as arquibancadas inteiras.

  Mergulhado no véu branco do vapor, eu ativei toda a minha Agilidade. Deslizei como um fantasma para trás dela. Em vez de tocá-la e sujar o momento com um toque simples nas costas, usei o embalo, ergui a minha Espada de Carvalho Negro e dei um corte horizontal limpo e veloz apenas no ar.

  A forte press?o do vento gerada pelo impacto cinético da minha pesada espada dissipou toda a cortina de vapor da arena de uma única vez.

  Quando a vis?o da arquibancada voltou ao normal, o estádio paralisou.

  Eu estava de pé atrás de Flora. E a grossa e letal lamina de carvalho negro da minha espada estava travada a exatamente um milímetro de distancia da pele suada do pesco?o dela. O movimento final. O xeque-mate silencioso.

  Flora arregalou os olhos, respirou fundo, abaixou a sua espada de madeira e soltou uma risada cansada, porém extremamente orgulhosa. Ela se virou para mim e, ignorando os protocolos chatos, nós dois nos curvamos simultaneamente, abaixando as cabe?as em um profundo e sincero cumprimento militar. Um sinal claro de que, apesar de inimigos na arena, éramos guerreiros guiados pelo mesmo respeito marcial. Ela provou, para quem quisesse ver, que as mulheres de Rodania n?o nasceram para enfeitar castelos.

  — CARAMBA! ESSE DUELO... FOI A COISA MAIS LINDA DE HOJE! — o Locutor quase chorou no microfone, enquanto a torcida aplaudia de pé a demonstra??o de honra. — Igris é um monstro absoluto, mas Flora Rodan acaba de gravar seu nome na história! Uma salva de palmas para a nossa Guerreira Suprema! E agora, senhoras e senhores... a úLTIMA batalha das Semifinais!

  O tel?o mágico piscou em vermelho.

  — Podem entrar! De um lado, a Monstra da Realeza... SAPHIRA SILFORD! E do outro, o Plebeu de A?o... JOSHUA LIONHEART! Esses dois trilharam caminhos literalmente opostos na vida! Uma é a Maga Absoluta; o outro é o ápice do Guerreiro Físico! E eles s?o da mesma Fac??o! A amizade acaba na borda do ringue!

  Saphira e Joshua entraram na arena por lados opostos. A atmosfera festiva desapareceu, substituída por uma tens?o t?o densa que era difícil respirar.

  Saphira n?o usava cajado, nem a armadura refor?ada que eu conhecia. Ela vestia um elegante sobretudo de couro negro por cima de um vestido leve de batalha, as m?os nuas cruzadas nas costas, exalando uma press?o de mana que fazia pequenas pedras do ch?o levitarem.

  Joshua estava parado, sorrindo de orelha a orelha. Mas, antes que o Juiz levantasse a bandeira para anunciar o início, o grandalh?o plebeu ergueu a m?o, pedindo um segundo.

  Para o choque completo e absoluto de toda a nobreza ali presente, Joshua desatou as fivelas da sua grossa armadura de metal e a deixou cair no ch?o. BOOM! O mármore trincou. E n?o parou por aí. Ele tirou dos dedos quatro pesados anéis de prata rúnica, adornados com magia de conten??o.

  — Magia de Gravidade Terrestre?! — um professor gritou da arquibancada, pálido.

  Aquele garoto vinha treinando, andando e vivendo o tempo todo com o próprio corpo pesando, no mínimo, dez vezes mais do que o normal da gravidade!

  Joshua girou os ombros largos, estalou o pesco?o grosso e soltou um suspiro de alívio.

  — Aaaahhh! Finalmente! Eu t? t?o levinho que sinto que posso voar! E agora, a minha garota! — ele levou a m?o às costas e sacou uma lamina medonha, de um branco amarelado. — Minha Espada de Osso de Wyvern!

  (Nota Tática do Sistema: A dire??o do torneio foi for?ada a liberar o uso de uma lamina de Osso maci?o para o Joshua porque, devido à For?a absurda e sem controle do garoto, qualquer espada de madeira nobre estilha?ava na m?o dele no primeiro balan?o. O osso possuía as propriedades contundentes da madeira, mas com a durabilidade do a?o).

  O Juiz engoliu em seco, recuou três passos de seguran?a e abaixou o bra?o:

  — COME?EM!

  Saphira n?o piscou. Ela n?o cantou encantamentos, n?o levantou as m?os para o céu. Ela simplesmente estalou os dedos. Duas imensas e giratórias Lan?as de Gelo incandescente, cada uma com poder suficiente para atravessar as muralhas do castelo, materializaram-se no ar e dispararam em dire??o ao peito de Joshua na velocidade do som. Ela achou que as duas seriam o suficiente para jogá-lo para fora do ringue em um segundo.

  Mas foi aí que o mundo da magia foi virado de cabe?a para baixo.

  Joshua n?o saltou. Ele n?o esquivou para o lado. E ele definitivamente n?o usou nenhum amuleto patético de barreira mágica.

  Ele simplesmente firmou as duas botas no mármore trincado, respirou fundo até o peito inflar, empunhou a Espada de Osso com as duas m?os e... atacou a própria magia de frente.

  O movimento da espada dele foi t?o estupidamente rápido, t?o absurdo e com uma for?a centrífuga t?o colossal que o ar em volta da lamina distorceu. Ele n?o rebateu as lan?as de gelo. A espada de osso dele deslizou precisamente através da estrutura da mana.

  SQUELCH! SHATTER!

  O som n?o foi de gelo quebrando. Foi o som agoniante de magia pura sendo silenciada.

  As duas Lan?as Divinas de Saphira simplesmente evaporaram no ar, cortadas ao meio, reduzidas a poeira inofensiva de mana antes mesmo de tocarem a camisa de Joshua.

  No túnel dos competidores, eu arregalei os olhos até doerem. A minha mente tática deu tela azul. Ele n?o defendeu... ele cortou o feiti?o! Cortou a própria matemática da magia na for?a bruta! Nem eu, com os meus 240 pontos de Inteligência e Circuitos Brancos, conseguia fazer aquilo com eficiência! Aquilo n?o era um buff. Era a habilidade máxima do guerreiro físico, a lenda proibida: o Cancelamento Físico.

  Através de um treinamento torturante e quase desumano com os anéis de gravidade, a maestria de espada de Joshua alcan?ou um nível insano. Com o controle muscular e a for?a bruta aplicada no vetor correto, a espada de osso dele cortava cirurgicamente a exata frequência de onda da magia no ar, desfazendo a liga??o da mana inimiga.

  O estádio emudeceu. O choque foi t?o intenso que os Magos de Elite nas varandas reais deixaram os copos de vinho caírem, manchando os tapetes luxuosos de vermelho. Um plebeu inútil, sem a bên??o da mana, acabara de anular uma magia letal de forma organica.

  Saphira arregalou os olhos púrpuras. A Princesa Isekai sorriu, um sorriso genuíno de puro respeito e sede de sangue.

  — Joshua Lionheart. Você é um monstro maravilhoso — ela sussurrou, a voz ecoando pela arena. — Considere-se honrado. Eu vou te tratar como a amea?a continental que você é!

  O problema letal da técnica genial de Joshua n?o era a for?a, era a biologia limitante da carne. Ele só conseguia processar visualmente e cancelar uma magia pesada de cada vez com balan?os perfeitos de espada. Essa técnica anularia facilmente qualquer Arquimago brilhante do palácio em um duelo 1 contra 1.

  Mas Saphira n?o era uma maga normal do Sistema. Ela era uma Anomalia Absoluta.

  Os olhos dela brilharam em um branco cegante. A Princesa n?o lan?ou duas magias. Ela estendeu os bra?os e conjurou, ignorando totalmente qualquer regra de cooldown (tempo de recarga), exatas duzentas e cinquenta esferas flamejantes, foices de vento e lan?as de água simultaneamente no céu. Um exército flutuante de artilharia mista cobriu a vis?o do sol.

  — Corta isso, grand?o! — Saphira gritou, abaixando os bra?os.

  A tempestade choveu sobre ele.

  Joshua riu como um psicopata maravilhado. O grandalh?o plebeu balan?ou a espada de osso, girando o corpo como um tornado de músculos mortais. Ele cortou uma, cortou cinco, dez, quinze magias, evaporando explos?es no ar. Mas a quantidade era estupidamente assustadora. Ele n?o conseguia balan?ar a espada duzentas vezes por segundo.

  A chuva de explos?es coloridas e limitadas o engoliu. O ch?o de mármore foi detonado e transformado em cascalho.

  Quando a poeira mágica abaixou, Joshua estava deitado de costas na cratera, a camisa completamente chamuscada, ofegante, rindo alto e olhando para o céu estrelado do meio da tarde. Ele havia perdido pelas regras (costas no ch?o), mas ele havia chocado o mundo e reescrito os livros de tática militar de Eldória. Um plebeu que fatiou feiti?os.

  — CARAAAAMBA!!! — O Locutor gritou, a voz completamente falha e rouca. — EU NUNCA, NUNCA VI NADA PARECIDO NAS MINHAS DéCADAS DE VIDA! UM GUERREIRO CAPAZ DE CORTAR MAGIA COM OSSO! Isso demonstra o trabalho árduo e inumano de Joshua Lionheart, uma verdadeira potência oculta! MAS... a Princesa Saphira o esmagou sob o peso do apocalipse, ostentando reservas de mana simplesmente absurdas e incalculáveis!

  O estádio inteiro levantou. Plebeus e nobres aplaudiam a vitória de Saphira e a técnica revolucionária de Joshua com o mesmo vigor febril.

  — E AGORA, LEUNDERS! NóS TEMOS OS NOSSOS DOIS FINALISTAS! — O tel?o mágico projetou o meu rosto sério, rachado ao meio pelo rosto da Saphira. — A batalha do milênio! De um lado: Igris Wolford, o Cavaleiro Tático que n?o conhece o limite dos deuses! Do outro lado: Saphira Silford, a Maga Absoluta que transcende as leis do universo! Galera, peguem as suas bebidas e fa?am as suas ora??es, porque se esse estádio n?o for obliterado do mapa... nós teremos o maior espetáculo da história de Eldória! PREPAREM-SE PARA A GRANDE FINAL!

  Encostei a nuca na parede fria do túnel escuro. A minha espada no Inventário parecia pulsar junto com o meu cora??o acelerado.

  Fechei os olhos.

  é agora. O meu est?mago n?o doía mais. As minhas m?os n?o tremiam. Eu ia lutar contra a mulher que eu amo, contra a Visitante de outro mundo que possuiu poder suficiente para me varrer da existência com um estalar de dedos.

  Mas você, Saphira, pode ser poderosa... você pode ter a Luz e os deuses do seu lado... mas a minha for?a tática de vontade e a minha lamina de água ser?o maiores. Ajeitei o casaco, abri os olhos brilhando em determina??o letal e caminhei em dire??o à luz ensur

  decedora da arena. A batalha final estava prestes a come?ar.

  [FIM DO CAPíTULO 16]

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