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Capítulo 13 — O Terrível Campo de Batalha: Um Encontro

  Eu havia enfrentado friamente assassinos mascarados da implacável Organiza??o das Trevas na minha infancia. Havia cruzado espadas e sobrevivido à fúria da Espada do Rei de Sentostela. Havia, ontem mesmo, suportado a press?o esmagadora de uma proje??o fantasma de Nível Extremo e decapitado um Rei Goblin Mutante.

  Mas, sendo brutalmente sincero? Diante de todas essas prova??es de quase morte, eu nunca estive t?o absolutamente apavorado e suando frio na minha vida.

  Eu tinha acabado de sair de um banho quente e demorado. Vestia uma camisa social escura de bot?es bem alinhados e um casaco de couro leve e escuro, incrivelmente bem cortado, que eu comprei às pressas no centro. Mas o luxo n?o disfar?ava a minha biologia em panico. Meu cora??o trancado pelos Circuitos Roxos batia t?o rápido e forte no meu peito que eu achei seriamente que a passiva de Super Recupera??o ia ativar a qualquer segundo, achando que eu estava sofrendo uma hemorragia interna ou tendo um infarto letal.

  Desci as imensas escadas de mármore do dormitório masculino respirando fundo, repetindo mantras táticos de guerra para acalmar a mente.

  Fui esperar por ela do lado de fora, encostado na parede perto dos altos port?es de ferro da Academia. Tentei parecer relaxado. Olhei para cima, para a fachada do prédio, e vi a janela iluminada do meu quarto no quarto andar.

  Joshua estava lá. Ele estava debru?ado perigosamente sobre o parapeito de pedra. Ele n?o gritou para n?o chamar a aten??o dos guardas, mas abriu um sorriso gigantesco de orelha a orelha e mandou um joinha animado com as duas m?os grandes, gesticulando de forma exagerada e silenciosa: "Vai lá, cara! Respira! Você consegue, deita ela na porrada do amor! Manda a ver!"

  Eu revirei os olhos, mas n?o consegui evitar um sorriso e acenei de volta. Aquilo me deu uma inje??o de coragem pura. Depois de anos trancafiado no treinamento isolado de Sentostela, ter um amigo barulhento e normal como o Joshua era revigorante demais.

  Ent?o, o meu Olho Avaliador captou uma presen?a. E eu ouvi passos leves se aproximando pela cal?ada de pedra.

  Virei-me, e o mundo parou.

  Era Saphira.

  Ela n?o estava usando a pesada e imponente armadura de couro rúnico de sempre, nem as roupas táticas escuras com as quais ela fatiou os Goblins. Ela vestia um vestido simples e incrivelmente elegante, de um tom azul-celeste vivo que contrastava de forma perfeita e perigosa com os longos cabelos prateados e brilhantes dela, que hoje caíam soltos e livres pelos ombros e costas. Ela n?o parecia a Princesa Intocável e Sanguinária. Ela parecia uma garota celestial, delicada e absolutamente deslumbrante.

  Todos os meus pensamentos matemáticos de estrategista foram nocauteados na hora pela vis?o. O meu cérebro, com Inteligência Base acima de 80, deu um branco completo e humilhante.

  — Oi, Igris — ela sorriu, o olhar roxo brilhando de expectativa, colocando uma mecha de cabelo prateado delicadamente atrás da orelha.

  — V-Você está... caramba, Saphira. Você está linda — eu disse sem filtro, a voz saindo falha e um pouco mais grave e seca do que eu pretendia. Eu pigarrei forte, apertando os punhos e for?ando a coluna a ficar reta para voltar à postura militar. N?o podia entrar em panico agora. Igris Wolford n?o fraqueja! Sou um monstro tático! — Ahn... Vamos?

  Caminhamos lado a lado, em um silêncio inicial um pouco tenso, cruzando os port?es e descendo até o Centro Comercial da Capital Real de Eldória.

  Enquanto de dia a cidade era dominada pelo asfixiante comércio burocrático, carro?as pesadas e mercadores engravatados e apressados, a noite de Eldória era onde a verdadeira e velha magia cultural acontecia. O céu escuro era perfeitamente iluminado por centenas de lanternas e esferas de luzes mágicas flutuantes em tons de dourado e laranja. Havia música de bardos ecoando nas esquinas, cheiro de especiarias e carne assada de comida de rua, e pessoas rindo livres nos pubs.

  — Ei, Saphira! — chamei de repente, tentando soar confiante e no controle da miss?o. — Quer ir a um lugar especial?

  Ela me olhou pelo canto do olho, os olhos púrpuras brilhando intensamente com o reflexo das luzes da rua e com um ar de desafio.

  — Hum... sendo bem sincera, Mago Guerreiro, com aquele seu convite gaguejado na porta do meu quarto ontem à noite... eu n?o esperava que nosso primeiro passeio civil, à paisana e sozinhos, fosse se tornar oficialmente e publicamente um encontro com você, Igris! — ela deu uma risadinha provocativa, jogando o cabelo.

  Ao ouvir a palavra "encontro" sair da boca dela com tanta naturalidade, meu est?mago denso deu um salto mortal triplo invertido.

  Ao analisar taticamente a situa??o, sim... isso é claramente um encontro. Estou no campo minado. Ferrou muito.

  — B-Bom... — gaguejei de leve de novo, mas me recuperei fechando a cara. — é uma rota com um lugar no final que eu tenho certeza matemática de que você vai gostar.

  — Oh? Estou curiosa. E onde fica esse ponto cego no mapa?

  — Calma, para que a pressa estratégica? Temos alguns postos de controle para parar antes de irmos até lá! — respondi, tentando manter o mistério de um comandante. Ela riu com um ar de curiosidade adorável.

  Como o bom estrategista de combate de terreno que sou, eu havia virado a madrugada planejando a melhor rota de fuga e avan?o baseada nas minhas memórias fragmentadas de infancia da Capital. Cada passo estava calculado.

  — Vamos avan?ar primeiro ali! — apontei sutilmente para uma charmosa Loja de Botanica e Flores Mágicas na esquina de paralelepípedos.

  Entramos, e o cheiro doce e exótico de pólen tomou conta do ar quente. Fui direto e focado à prateleira trancada de vidro dos itens de raridade alta e, usando sem pena as pesadas moedas de prata que ganhamos na miss?o do Rei Goblin da Guilda, comprei uma rara Rosa Mágica da Dualidade. Era uma flor encantada que n?o murchava, com pétalas macias que brilhavam num gradiente suave e contínuo entre o azul escuro e o prateado estelar. Combinava absurdamente e perfeitamente com a estética mágica dela.

  — Isso é... — me aproximei dela na saída da loja e, com as m?os grossas e calejadas de segurar espadas tremendo só um pouquinho de nervosismo, coloquei a flor delicadamente no cabelo dela, prendendo a haste fina logo acima da orelha esquerda. — Um drop (saque) que eu achei que combinava muito com você hoje.

  Saphira tocou as pétalas da flor, surpresa com a beleza do item, e um rubor leve e incrivelmente fofo tomou conta das bochechas claras dela.

  — Nossa... Igris, que linda. Esse realmente é um presente maravilhoso. Obrigada de verdade.

  — Guarda os agradecimentos, recruta, porque o plano tático ainda tem muito mais etapas de explora??o! — brinquei, pegando confian?a e estendendo a m?o para ela.

  Ela n?o hesitou. Saphira segurou a minha m?o firme, entrela?ando os dedos finos e quentes dela nos meus, e um choque elétrico invisível, quente e maravilhoso subiu pelo meu bra?o até o pesco?o.

  Puxei-a delicadamente para a nossa próxima parada cirúrgica: um restaurante rústico de esquina, construído de madeira escura e tijolos aparentes antigos. Era um local muito mais simples, quente e barulhento, absurdamente longe dos restaurantes esnobes, frios e silenciosos da alta nobreza e dos burocratas, mas eu me lembrava com carinho das raras vezes em que meus pais, Shin e Sara, me traziam ali fugindo das festas do castelo. Eles faziam, de longe, a melhor e mais suja comida caseira de Eldória.

  — Aqui é um restaurante muito tático e nostálgico para mim — expliquei em voz baixa, abrindo a pesada porta de madeira para ela passar. — Você vai amar os pratos e os buffs de estamina. Mas devo avisar o perigo da miss?o... n?o se assuste com o cardápio. Os donos daqui gostam de batizar os pratos de carne com piadas ridículas. Fazer o pedido final em voz alta para o gar?om é uma verdadeira miss?o de sobrevivência contra a vergonha alheia.

  Saphira riu alto. — Ent?o tá! Desafio aceito pelo Sistema.

  Assim que entramos no calor do sal?o, a dona do local, a formidável Dona Clarie, nos recebeu no balc?o. Ela já estava com os cabelos grisalhos e algumas rugas a mais marcando o rosto do que na minha lembran?a de sete anos atrás, mas continuava com o exato mesmo carisma barulhento e o avental branco sujo de farinha e molho.

  — Pelos deuses celestiais! — Clarie parou de limpar um copo e arregalou os olhos miúdos. — Ah! Mas olha só! Oi, Igris! Meu menino triste da magia verde! Quanto tempo! Você cresceu e encorpou tanto que quase n?o te reconheci com esses ombros de soldado!

  Ouvir aquilo e n?o ser chamado de "prodígio" ou "monstro" por um segundo aqueceu meu cora??o congelado. Eu n?o era apenas o garoto trágico e traumatizado ali; eu era uma pessoa normal que cresceu.

  — Oi, Dona Clarie. é muito bom estar de volta à base.

  Ela olhou astutamente para as nossas m?os firmemente dadas e deu um sorriso largo, malicioso e absurdamente constrangedor de tia fofoqueira.

  — Ahhh, agora eu entendo! Vejo que o jovem lorde está muito, muito bem acompanhado esta noite! Para vocês dois, temos um local especial e estratégico na casa. Venham, a mesa isolada dos pombinhos apaixonados está livre nos fundos!

  O meu rosto esquentou até as orelhas como se eu tivesse levado um feiti?o de fogo. Fiquei tenso, mas mantive a compostura de gelo. Clarie nos guiou rindo até uma mesa aconchegante de madeira escura para duas pessoas, próxima a uma janela limpa que dava vista para o festival colorido na rua. Ela nos entregou os surrados cardápios de couro e piscou um olho enorme para Saphira antes de sair rebolando para a cozinha.

  Saphira abriu o cardápio e, cumprindo o aviso, n?o durou dez segundos de seriedade.

  — Hahaha! Igris, por favor, é sério mesmo isso aqui?! — ela n?o conseguiu segurar o riso cristalino, cobrindo a boca com a m?o e apontando para as letras. — Por essa barreira eu n?o esperava! Tem um ensopado de carne aqui chamado 'Cora??o de M?e Meloso', e a sobremesa principal de morango se chama 'Abra?o de Urso Carente'! Em nome dos deuses, como você olha na cara de um homem e pede isso sem rir?!

  A risada gostosa dela era t?o absurdamente contagiante que a minha armadura ruiu e eu desabei junto. Acabamos caindo na gargalhada e chorando de rir no meio do restaurante barulhento, ignorando os olhares das outras mesas.

  Eu me lembrei e contei para ela de quando meu falecido pai, todo engravatado de lorde, tentava pedir o prato principal "Frango Arrepiado do Amor" para o gar?om e n?o conseguia terminar a frase sem a minha m?e dar um tapa nas costas dele de tanto rir. Passamos mais tempo rindo das op??es ridículas do que escolhendo a comida de fato.

  Depois que nos acalmamos (comigo sendo for?ado a pedir o "Abra?o de Urso Carente" vermelho de vergonha para o gar?om carrancudo) e fizemos nossos pedidos, o clima ficou mil vezes mais relaxado e leve. A comida estava divina, pesada e reconfortante.

  Enquanto tomávamos um suco espesso de frutas vermelhas geladas, decidi que era a hora de avan?ar a linha de frente.

  — Saphira... — comecei, o tom de voz baixando, limpando a garganta. — Sinceramente, tenho uma pergunta séria para te fazer. Posso?

  — Sim! Pode falar, comandante! — ela disse, animada, apoiando o queixo nas m?os pálidas, me olhando com total e perigosa aten??o.

  Respirei fundo. Rodeios verbais, discursos poéticos e indiretas sutis n?o eram, de forma alguma, o meu forte. Eu ia ser direto como uma estocada de carvalho negro.

  — Vou ser direto, afinal, n?o tenho motivos táticos para dar voltas no alvo. Eu vou te dar um item, um presente, mas primeiro quero saber de verdade se você... se você vai aceitá-lo.

  Ela ergueu uma sobrancelha fina, extremamente curiosa com a quebra de protocolo.

  — Além da rosa mágica maravilhosa que você já me deu no início da miss?o?

  — Sim. E é um loot muito, muito mais valioso, acredite.

  Isso claramente despertou o instinto e o interesse dela de forma perigosa. Os olhos púrpuras brilharam intensamente. Decidi internamente que aquela seria a minha cartada letal final para conquistar o cora??o fortificado dela de vez.

  Ei! Espera aí! O que caralhos eu t? pensando?! Cartada final? Conquistar cora??o de vez? Calma, cérebro estúpido! Mantenha a postura militar! Você é Igris Wolford, o cara que assusta Generais, você n?o vai enfraquecer e gaguejar diante de um perigo e de uma garota de vestido! ...Espera, que porra de perigo é esse?!

  O meu violento e caótico conflito interno neural deve ter transparecido de forma patética no meu rosto tenso, porque Saphira soltou uma gargalhada genuína e alta, jogando a cabe?a para trás.

  — Igris do céu! Tá tudo bem com o seu Sistema?! Você tá com uma careta muito engra?ada de quem engoliu um lim?o azedo! Hahaha!

  Ouvir a risada pura dela desarmou a minha tens?o asfixiante e o medo da rejei??o. Eu ri de mim mesmo, balan?ando a cabe?a.

  — T? bem, t? bem, o hardware n?o queimou. é que eu acabei de perceber, da forma mais humilhante possível, que liderar um exército de idiotas num cerco de guerra é mil vezes mais fácil do que isso aqui. Mas vem, levanta a bunda dessa cadeira! Agora é o momento de irmos para a atra??o principal e final da noite!

  Paguei a conta com um generoso gorjeta de prata, nos despedimos da barulhenta Dona Clarie e caminhamos algumas quadras de m?os dadas, desviando do fluxo de carruagens, até chegar aos enormes, iluminados e barulhentos port?es de ferro e luzes coloridas da Pra?a Mágica.

  — Aqui estamos, no ponto final! O Parque Mágico de Ilus?es! Uma raríssima especialidade turística civil de Eldória! — anunciei, abrindo os bra?os.

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  Saphira arregalou os grandes olhos, o queixo caído e maravilhada com as luzes feéricas piscantes, as enormes engrenagens de brinquedos que desafiavam a física e as ilus?es mágicas gigantes flutuando no ar escuro.

  — Caramba, Igris! Isso... isso é literalmente um parque de divers?es moderno! Que incrível! Eu nem sabia de verdade que esse tipo de lugar inútil, mas divertido, existia nas entranhas burocráticas deste mundo medieval!

  Sinceramente, nem eu sabia direito, pensei comigo mesmo, suando frio. Eu ouvi os rumores de cadetes rindo no dormitório, cruzei os dados do mapa e decidi vir para pagar de conhecedor do terreno. Mas é melhor n?o falar isso em voz alta.

  — Vem, vamos infiltrar o local! — chamei.

  — Igris, espera aí, doido! Temos que pagar a taxa de entrada na guarita, n?o? — ela perguntou, procurando a pesada bolsa de moedas de couro na cintura do vestido.

  — N?o precisa sacar o ouro! Porque aqui é um local público sustentado pelos impostos, e... ahn... olha o letreiro. Casais têm passe livre na sexta-feira! — apontei rapidamente para a placa brilhante e cafona na entrada que dizia exatamente isso em letras de neon mágico. Eu vi a palavra "casal isento" de longe e, como um mercenário de guilda barato, me aproveitei da brecha tática financeira para impressioná-la.

  Entramos. Na minha cabe?a dura, eu achei que, por ter Atributos Biológicos Maximizados, Resistência de um Comandante-Geral e já ter matado Goblins Mutantes sanguinários, um parquinho de divers?es colorido para civis seria fichinha.

  Foi, sem sombra de dúvidas, o meu maior erro de cálculo estatístico da vida. Aquilo ali n?o era divers?o; era o verdadeiro local de tortura moderna de Eldória!

  Fomos direto e de forma irresponsável numa atra??o de metal alta que despencava de uma altura vertiginosa e absurda usando runas de manipula??o de gravidade.

  Quando a máquina despencou no vácuo, o meu est?mago denso foi parar direto na garganta. Eu, o garoto de pedra que derrotou o Rei Goblin sem piscar ou demonstrar emo??o, fechei os olhos e gritei a plenos pulm?es na descida mortal, apertando a trava e quase arrancando e entortando a barra de seguran?a de ferro de a?o maci?o com a press?o da minha For?a 80 ativada no susto.

  Saphira, ao meu lado despencando no abismo, ria tanto e t?o alto da minha cara branca de panico puro que chegou a chorar lágrimas de verdade. Eu quase vomitei o Abra?o de Urso Carente umas três vezes, mas tentei (e falhei miseravelmente) manter a pose de garoto dur?o.

  Depois de horas de gritaria em brinquedos de tortura gravitacional, fomos às barracas de jogos de tiro ao alvo com arco e flecha de press?o. Nós literalmente destruímos a banca do mercador em cinco minutos. Usando as nossas Percep??es 80+ para mirar e burlar a física de ar, faturamos todos os ursos de pelúcia gigantes e fomos rudemente expulsos sob vaias da barraca pelo dono frustrado por sermos "ladr?es absurdamente bons demais".

  Com muita caminhada e carregando pelúcias estupidamente grandes, o cansa?o bom bateu.

  Fomos a uma barraca iluminada de gelo alquímico e compramos um doce denso e gelado servido num cone crocante de biscoito. O letreiro chamava o item de "Gelo Doce do Norte", mas Saphira mordeu, sorriu e chamou de "Sorvete". Eu n?o sabia de onde vinha a palavra estranha, mas imaginei que devia ser do antigo e avan?ado mundo real (Jap?o) de onde ela veio, ent?o apenas concordei para n?o estragar a magia.

  Caminhamos fugindo do barulho das máquinas até uma área isolada, verde e mais silenciosa do parque, e sentamos num banco de madeira maci?a, confortavelmente escondidos debaixo da sombra de uma grande árvore frondosa, iluminada naturalmente por dezenas de vagalumes mágicos azuis.

  O clima agitado e barulhento do parque foi sumindo e evaporando, dando espa?o a um silêncio muito profundo, tenso, mas incrivelmente confortável entre nós.

  Saphira deu mais uma pequena mordida no sorvete, encostou as costas no banco, soltou um suspiro profundo e relaxado, e olhou para as estrelas frias que pontilhavam o céu noturno de Leunders.

  — Sabe, Igris... — a voz dela cortou o silêncio, soando baixa e incrivelmente suave, desprovida de qualquer sarcasmo ou magia. — Eu... eu realmente te agrade?o. De cora??o. Você me salvou de verdade e de forma profunda várias vezes nessa jornada louca desde a Floresta.

  — Eu n?o te salvei tanto assim com a espada, Saphira. Para de humildade. Você é, objetivamente, a pessoa com mais poder bruto que eu conhe?o no raio de mil quil?metros — respondi, rindo modesto.

  — Eu n?o digo de me salvar da morte por monstros — ela virou o rosto e me olhou.

  O olhar púrpura dela, banhado na luz dos vagalumes, parecia furar as minhas barreiras mentais, as minhas defesas roxas e desvendar a minha alma quebrada.

  — Digo de me salvar da monotonia doentia, da press?o política e da falsidade podre da nobreza que ia me engolir viva em Sentostela. Ficar ao seu lado de forma natural, mesmo no meio daquele inferno de treinos e masmorras, é inspirador. é... é um porto seguro. é muito bom.

  Ela pausou, os olhos marejando levemente. O vento frio noturno balan?ou os cabelos prateados dela e a rosa mágica iluminada que eu havia lhe dado na loja.

  — Sendo brutalmente sincera e aberta com você, Senhor Tático Igris... — a voz dela tremeu um milímetro. — Eu te amo. Mas n?o me olhe assim. Eu te amo de verdade, e você n?o é só uma arma ou um homem forjado no sangue no corpo musculoso de um adolescente. N?o é só pela sua for?a bruta surreal ou pela sua coragem maluca. Eu gosto de você porque você é o único que me escuta, o único que entende as minhas dores do Sistema... e você, com esse seu jeito fechado, simplesmente me faz feliz e tranquila de um jeito absurdo que a nobreza e as regras desse mundo nunca fizeram em treze anos. Eu lhe agrade?o muito pela coragem de hoje. E olha... eu sei muito bem que nós temos nossos pesados traumas na bagagem, a amea?a da Organiza??o, e talvez você n?o sinta exatamente o mesmo peso emocional que eu sinto no momento por ser focado na vingan?a, no entanto...

  — Saphira! Pelo amor de deus, respira! — eu a interrompi, cortando a defesa insegura dela.

  A minha voz saiu firme, grossa e segura, ancorando-a, embora, por dentro, o meu cora??o apavorado estivesse quase saindo pela boca, esmurrando as minhas costelas e gritando para eu correr.

  Ela parou de falar de solavanco, surpresa com a minha agressividade mansa.

  Eu me virei de frente no banco, inclinei o corpo e olhei no fundo, na imensid?o dos olhos púrpuras e marejados dela. Todo o peso das mortes cruéis do meu passado, toda a merda da burocracia de Eldória, toda a sombra iminente de Zack Wolford e os alertas malditos do Sistema simplesmente desapareceram da minha existência.

  Só existia a garota incrível do Modo Cheat ali.

  — Eu também te amo, Saphira. Desde aquele dia no baile — falei, destrancando o baú e deixando a verdade morna transbordar de forma incontrolável. — Na verdade tática, para você ver como eu sou patético nisso... eu tinha virado a madrugada e planejado um longo e estúpido discurso romantico inteiro e calculado que ia te contar isso um pouco depois da meia-noite... mas você meteu o pé na porta e apressou e atropelou as coisas como sempre faz nas masmorras. Ent?o, ao inferno com o cronograma. Acho que chegou a maldita hora da recompensa final.

  Coloquei a m?o direita tremendo sutilmente no bolso fundo do meu casaco de couro. Tirei de lá uma pequena e aveludada caixa escura. Abri.

  Dentro, repousando na seda, havia uma pequena e brilhante rocha cristalizada, perfeitamente e esfericamente lapidada, emitindo uma pulsa??o quente de luz suave.

  A cobi?ada Pedra da Dualidade.

  Era o artefato e símbolo absoluto de cortejo formal e compromisso sagrado da distante família real do Reino de Sentostela.

  Eu estendi a caixa aberta para ela.

  Saphira arregalou os olhos e perdeu o f?lego num arquejo sonoro, deixando o resto do sorvete cair no ch?o. As m?os finas dela voaram e cobriram a boca. Ela claramente, com toda a genialidade dela, n?o esperava e nem calculava por aquilo. As lágrimas grossas finalmente transbordaram e encheram os olhos brilhantes dela, demonstrando uma surpresa genuína e uma felicidade pura, crua e esmagadora.

  Eu n?o iria usar, de jeito nenhum, os tabus, as leis secas e os metais frios de Eldória para prendê-la. Eu n?o ia dar a ela um maldito colar de ouro de compromisso eldóriano comum que pudesse ser arrancado ou quebrado de forma brutal no meio de uma batalha na rua.

  Eu iria honrar a heran?a mágica e a cultura isolada do lar dela. De Sentostela. De onde o pai dela me acolheu quando eu n?o era nada.

  Eu escorreguei do banco e me ajoelhei na terra batida e fria na frente dela, segurando a caixa com a pedra flutuante, e recitei o voto antigo, exato e decorado que estudei exaustivamente, trancafiado por horas lendo os densos livros de tradi??o da antiga realeza de Sentostela na biblioteca do castelo do Rei Aquamarine:

  — "Que este sagrado momento e a luz desta rocha vinculem e fundam os nossos densos cora??es, de forma vital que, daqui em diante e na pior das mortes e tempestades... nós dois estaremos interligados e conectados na linha de frente e na paz... sempre!"

  (Nota mental tática: A palavra 'Sempre' no final da frase de Sentostela selava inquebravelmente o namoro oficial e o compromisso civil. Se eu tivesse errado a tradu??o e dito "Até que a morte brutal nos separe no fim", segundo os livros, seria um pacto de sangue ou um pedido formal de Casamento Real. E eu, por mais apaixonado que estivesse, n?o era louco, burro ou suicida o suficiente de pular e queimar tantas etapas de relacionamento na frente do pai dela de uma vez só).

  Saphira chorou abertamente, rindo alto de emo??o e incredulidade. O alto intelecto dela percebeu imediatamente que eu havia estudado a fundo e sozinho os complexos costumes arcaicos e a língua antiga da terra natal do corpo dela apenas e exclusivamente para fazê-la se sentir protegida e em casa.

  Ela nem pensou duas vezes. Com as m?os trêmulas de ansiedade, ela puxou a pequena, forte e antiga corrente de prata que usava escondida por baixo da gola do vestido azul. Na ponta da corrente fria, balan?ando, havia o exato e milimétrico receptáculo c?ncavo e vazio para acomodar a lendária pedra gêmea.

  Ela pegou a brilhante Pedra da Dualidade da minha m?o e, com um clique satisfatório, a encaixou perfeitamente no colar.

  No mesmo milésimo de instante, o código do feiti?o rodou e uma espécie de pacto mágico e rústico de alma foi firmado sob as estrelas. A pedra encaixada no peito dela brilhou cegantemente.

  De repente, uma luz prateada e calorosa envolveu de forma protetora nós dois ajoelhados. O brilho da pedra tra?ou uma finíssima, forte e indestrutível linha mágica flutuante pelo ar, conectando o colar cravado no pesco?o dela diretamente ao centro calejado do meu peito, furando e fundindo a energia direto no meu núcleo de mana Roxo, representando biologicamente e espiritualmente que agora estávamos rastreáveis, protegidos e interligados pelo destino e pelo Sistema em todas as linhas temporais. E t?o rápido e fulminante quanto apareceu no ar, a linha mágica e a luz penetraram densas nos nossos cora??es e a luz sumiu, deixando apenas a sensa??o quente.

  O pacto estava selado.

  Eu sorri e levantei devagar os joelhos sujos de terra.

  Mas, antes que eu abrisse a boca e pudesse dizer qualquer outra coisa ou fazer uma piada sem gra?a sobre a minha cal?a suja para quebrar o choro, Saphira, com a velocidade da classe dela, segurou com for?a as lapelas do colarinho do meu casaco de couro escuro, me puxou agressivamente para perto do rosto dela e me calou de forma imperativa com um beijo incrivelmente apaixonado e de surpresa.

  Nesse exato e maravilhoso momento, o parque colorido sumiu. O barulho das máquinas sumiu. As amea?as de monstros e o quadro de avisos em vermelho do Sistema calaram a boca e sumiram do meu olho. Senti a louca e inebriante sensa??o de que estávamos os dois completamente sozinhos e isolados no universo inteiro, e a porcaria do tempo do relógio de Eldória simplesmente parou de bater e contar os minutos na base do instinto.

  Era, de fato, o meu tardio, desajeitado, mas primeiro e verdadeiro beijo. E, pelos deuses do Sistema, foi incrivelmente suave, letal e perfeito.

  Voltamos flutuando e em silêncio confortável para os corredores e dormitórios trancados da Academia de m?os dadas de forma firme, andando da forma mais burra e devagar que podíamos para a noite congelar e n?o acabar ali nos port?es. Já passava batido das duas e meia da madrugada quando cruzei a seguran?a furtivamente e abri a ma?aneta, chegando secretamente ao meu quarto escuro e bagun?ado.

  Joshua Lionheart estava esparramado, quase caindo da cama pequena e dormindo pesado, roncando alto como o motor de um trator de guerra em pane.

  Eu tirei as botas na ponta dos pés, me joguei de costas e ainda vestido na minha cama macia, cruzando as m?os atrás da nuca e encarando o teto de pedra fria com um sorriso bobo, idiota e intransponível estampado de orelha a orelha no rosto duro.

  Fiquei rolando e batendo na cama por horas, feliz da vida de verdade, as doces lembran?as, os cheiros e os detalhes cruciais do encontro reprisando em loop eterno e inquebrável na minha cabe?a processadora. O meu núcleo estava t?o agitado que eu nem sequer consegui fechar os olhos de tanta adrenalina emocional entupindo as veias. Fiquei rolando irrequieto e ansioso a madrugada toda, em um transe bom e curativo, até os primeiros raios fracos e dourados de sol da manh? entrarem cortando a janela do quarto.

  Mas, na dura e burocrática realidade de Leunders do dia seguinte, a euforia, as borboletas no est?mago e a paz de espírito do romance recém-nascido tiveram que ser empurradas e guardadas rapidamente numa gavetinha segura no fundo da mente.

  A rigorosa Academia Próxia cobrou alto o seu pre?o de matrícula ao nascer do sol.

  Finalmente, após as burocracias, fomos convocados e tivemos uma grande e maci?a aula teórica oficial e unificada no grandioso anfiteatro acadêmico.

  Nos últimos intensos e sangrentos dias desde a nossa chegada com a carruagem, a rotina espartana tinha sido brutal e focada no abate cego: lutar contra o espelho e concluir o registro na Guilda de Aventureiros nas sombras, matan?a descontrolada de Goblins e feras Mutantes na floresta para somar XP rápido, e duro treinamento físico isolado para domar os Circuitos Roxos. Todos sabiam, desde o come?o, que a famosa Academia Próxia era estupidamente muito mais focada na prática de guerra e sobrevivência do que puramente na teoria estática, mas a estranha aula de estratégia de campo de hoje era especial, atípica e unificada com todas as turmas.

  A tens?o e a fofoca entre os nobres e plebeus na sala enorme estava t?o densa e palpável que dava para cortar e pesar no ar.

  Saphira estava sentada na privilegiada fileira central da frente com as garotas de elite, mas, quando nossos olhares ca?adores se procuraram e se cruzaram através das fileiras no meio da confus?o de alunos se sentando, ela me deu um sorriso cúmplice, incrivelmente discreto e brilhante, girando de forma sutil o pingente encravado da Dualidade no pesco?o antes de voltar a focar no quadro negro.

  O silêncio reinou de forma imediata e assustadora quando o Diretor e Professor Chefe, o temido e poderoso arquimago Lucius, subiu de forma imponente e esmagando as escadas de madeira do palanque principal da sala com seu cajado pesado. Ele n?o estava ali para debater ou parecer querer enrolar amigavelmente com as boas-vindas da escola.

  — Silêncio mortal nas fileiras, cadetes! — a voz carregada de aura de gravidade dele ecoou e expandiu de forma violenta, calando e prendendo o f?lego e o cora??o de todo e qualquer aluno no sal?o inteiro. — Vocês tiveram alguns míseros e livres dias da primeira semana para brincar. Tiveram o longo tempo de sobra nas noites livres para explorar a bela cidade grande com luxos, amarrar acordos, montar e formalizar oficialmente as suas táticas Partys (Grupos) e registros mercenários na Guilda, e até para medir e se achar pela ridícula pontua??o de for?a bruta nos primeiros exames infantis de admiss?o!

  Ele bateu a base do cajado de ouro no ch?o de madeira com um baque surdo de tremer o dente.

  — Mas saibam de uma verdade universal da guerra agora! Brincar de ca?ar monstrinhos, fatiar goblins rasos ou duelar exibindo técnicas no pátio limpo na frente das garotas da guilda para ganhar algumas moedas de prata... Tudo isso acaba e morre rigorosamente aqui! O curativo sai e a ferida abre! é agora, com a prova do continente, que vai ser a hora oficial e suja de ver quem de vocês nobres e plebeus mimados s?o as piadas temporárias, e quem ser?o e sobreviver?o como os verdadeiros pilares da funda??o letal da próxima gera??o da coroa!

  O formidável e severo professor ergueu e acenou agudamente com a m?o nua para o alto, e um pergaminho holográfico roxo e gigante, carregado de energia de aviso do Sistema da escola, desenrolou-se rapidamente flutuando acima da lousa logo atrás dele, atraindo os olhos apavorados de todos.

  — Preparem-se de corpo e alma nas masmorras, estoquem suas curas e treinem até os seus próprios ossos trincarem, quebrarem e curarem. Porque, cravado no calendário, daqui a exatas e insubstituíveis duas semanas de sol, no campo aberto do estádio de guerra... acontecerá o grande banho de sangue! O colossal evento e a prova de fogo viva que julgará e definirá, publicamente e politicamente, o futuro hierárquico, financeiro e burocrático de cada um de vocês nesta Academia! E saibam que as comitivas estrangeiras, os generais mercenários das Guildas, os espi?es reais e os olhares ávidos de todo o imenso continente de Leunders estar?o focados inteiramente e transmitindo as mortes daqui! O Evento Supremo de Sobrevivência que afogará e separará, na terra e na lama, a escória e os fracos medrosos... da nossa verdadeira Elite de Sangue!

  O título do evento letal piscou forte, com um ruído amea?ador, em gigantescas letras douradas, flamejantes e colossais no quadro de proje??o da sala:

  [MISS?O OBRIGATóRIA DA COROA - EVENTO GLOBAL DE LEUNDERS:]

  O SANGRENTO TORNEIO DAS FAC??ES ACADêMICAS.

  A plateia do anfiteatro da sala foi levada à completa, insana e absoluta loucura histérica.

  O garoto enorme, o fiel Joshua, sentado apertado na pequena cadeira ao meu lado, socou e partiu de empolga??o marcial um peda?o da pesada mesa de mogno da sala no meio, com os olhos castanhos brilhando e pegando fogo selvagem de antecipa??o e vontade extrema de cair na porrada.

  Eu n?o me mexi de susto ou choque como os outros e nem levantei os bra?os. Eu recostei com calma as costas na cadeira e cruzei lentamente os bra?os musculosos sobre o peito. Um sorriso sutil, sombrio, afiado e incrivelmente perigoso e animado se formou nas laterais da minha boca silenciosa e cortou o meu rosto.

  Eu estava genuinamente feliz. Eu estava beirando o ápice indomável e oculto da minha própria e letal for?a organica de Nível 12 com os 13 Passos sendo burilados. Eu tinha encontrado as raízes emocionais e humanas e os novos e confiáveis aliados perfeitos e pesados de artilharia, cura e tanque que fariam as minhas costas indestrutíveis de qualquer punhalada ou trai??o das sombras na linha de frente e retaguarda de fogo. O amor da minha vida já me dava for?as ilimitadas.

  A prepara??o para a verdadeira ca?ada ao desgra?ado do falso Herói Invencível, à covardia burocrática e aos monstros sorridentes da Organiza??o das Trevas enraizada nas fac??es ricas do torneio... iria, sem dúvida alguma de falha... recome?ar, suja de sangue ou na terra batida e lama, exatamente com mortes oficiais agora.

  O Grupo Eclipse de Eldória ia apagar todas as luzes fracas dos adversários engravatados e trucidar todos os Players das Fac??es inimigas da Academia que ficassem, ousadamente, atravessados e travados no nosso estreito, rápido e sombrio caminho da vitória e da justi?a no evento letal que estava no horizonte cravado.

  A Guerra Política contra

  as Fac??es e Guildas come?ou.

  [FIM DO CAPíTULO 13]

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