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Capítulo 9 — O Legado de Sangue e Areia

  Subir de nível já n?o era o meu maior problema.

  Desde aquela primeira Macro-Atualiza??o do Sistema, as margens da Floresta da Escurid?o haviam se tornado o meu quintal de abate. Eu ia para lá com Saphira quase todas as noites. O matadouro era eficiente: com o sistema passivo de Party dividindo o XP massivo dos feiti?os de área da Princesa, e o meu Olho Avaliador apontando os pontos vitais dos predadores nas sombras, eu consegui arrancar níveis extras do meu Título amaldi?oado.

  Atualmente, eu estava cravado no Nível 12.

  Isso significava que eu havia ultrapassado a barreira do temido Nível 10. Segundo a nota de rodapé da minha Classe de Grande Herói, eu finalmente havia desbloqueado a possibilidade de encontrar Miss?es Secretas para aprender Habilidades Rúnicas.

  Mas, até agora? Absolutamente nada.

  O Sistema n?o me deu nenhuma bússola dourada piscando no mapa, nenhum pergaminho brilhante caindo do céu ou um manual de instru??es. O nome do requisito era literal: a miss?o era secreta. O Sistema queria que eu ca?asse anomalias, for?asse as regras da física ou quebrasse o próprio mundo de Leunders para trope?ar em uma.

  Hoje, no entanto, eu n?o tinha luxo mental para ca?ar runas. Hoje marcava o meu primeiro duelo de reavalia??o com o Comandante Topázio Arsélia desde o dia em que ele quase partiu a minha coluna vertebral ao meio com o cabo de uma espada.

  Sinceramente? Eu estava psicologicamente preparado para engolir poeira e perder de novo. Topázio era um monstro de pura for?a cinética, um homem sem mana que anulava a magia na base da violência. Mas o Igris que apanhou naquele dia n?o existia mais. A minha capacidade de mana havia expandido, os meus atributos físicos beiravam as dezenas e centenas gra?as à muta??o contínua da minha Classe, e eu tinha Traits ativas na manga.

  Caminhei até a imensa área de treinamento da cavalaria de Sentostela. O cheiro de areia seca e metal aquecido ao sol da manh? acalmou o meu cora??o.

  Lá estava ele. O gigante Topázio, com um sorriso largo e rústico estampado no rosto marcado por cicatrizes ao me ver cruzar o port?o de ferro.

  Pegamos nossas Espadas de Mana holográficas nas arquibancadas e caminhamos em silêncio até o centro da arena cercada por barreiras rúnicas. Dessa vez, porém, tudo foi diferente.

  A minha postura n?o era mais desleixada. Eu n?o adotei a base agressiva e suicida de um novato que só queria bater. Eu parei perfeitamente ereto, os pés cravados na areia na exata medida dos meus ombros, a lamina azulada alinhada milimetricamente com o meu centro de gravidade. Eu exalava uma imponência fria e calculista que n?o combinava com a minha idade.

  O sorriso de Topázio desapareceu. Ele estreitou os olhos de águia. Os instintos de guerra dele perceberam na mesma hora que a crian?a reativa que havia lutado com ele há meses havia sido substituída por um predador que pensava antes de respirar.

  O sinal de início foi dado pelo apito do guarda na arquibancada.

  Bum! Topázio detonou a areia sob as botas e explodiu na minha dire??o.

  Eu trinquei os dentes, preparando o meu corpo para apanhar da velocidade fantasma dele, esperando a finta lateral ou o ataque pelas costas. Mas, no exato milissegundo em que a minha Percep??o Maximizada do Nível 12 se conectou com a minha Inteligência... algo perturbador aconteceu.

  Ele está... lento?

  N?o era o efeito de dilata??o do Instinto Superior. O tempo n?o havia parado. A minha mana continuava cheia.

  Era puramente a minha biologia monstruosa operando em tempo real. A aura assustadora e o jogo de pernas imperceptível que Topázio usava para sumir do campo de vis?o agora eram perfeitamente rastreáveis para as minhas retinas atualizadas. Eu conseguia ver o calcanhar dele girando na areia; eu conseguia prever o balan?o do ombro direito telegrafando o corte de guilhotina.

  Aproveitando o espa?o de três décimos de segundo que a guarda aberta dele me ofereceu, eu n?o hesitei. N?o usei magia. N?o usei skills secretas.

  Eu usei apenas o fundamento básico que ele mesmo me obrigou a repetir mil vezes.

  Ataquei. Topázio tentou aplicar a sua famosa técnica de cancelamento de peso para recuar e sumir da minha frente, mas a física era implacável: ele n?o conseguia mais se mover mais rápido do que eu conseguia processar. A minha Velocidade base engoliu a capacidade de rea??o neurológica dele.

  Abaixei o tronco, passando por debaixo do arco inútil da lamina dele, deslizei a bota na areia e cravei a ponta achatada da minha espada de luz na base desprotegida do est?mago do Comandante.

  BEEP!

  A espada holográfica piscou num Verde ofuscante e escandaloso. O impacto puramente cinético do meu bra?o ergueu os cento e vinte quilos de Topázio do ch?o e o jogou de costas na areia com um baque surdo. A Barreira da arena apitou estridentemente, declarando o fim definitivo do combate.

  Fiquei parado, a espada abaixada, respirando fundo e olhando para a minha própria m?o enluvada.

  A batalha n?o durou nem dez segundos. Eu fiz apenas um único movimento de contra-ataque.

  Eu, uma crian?a órf? prestes a fazer seis anos de idade, havia lido e derrotado o Comandante Geral da Cavalaria de Sentostela em um piscar de olhos.

  Nesse momento de silêncio absoluto, a realidade fria e amarga do Sistema bateu na minha cara. O salto evolutivo de Níveis multiplicou a densidade dos meus atributos de uma forma t?o obscena que eu n?o pertencia mais à mesma categoria biológica que aquele homem honrado. A experiência de quarenta anos de guerra de Topázio acabara de ser esmagada pelos números matemáticos do Nível 12 do meu Sistema. Eu estava, em termos puramente genéticos, em outro patamar de existência.

  Topázio tossiu seco, rolou de lado segurando a placa de metal do est?mago e se levantou lentamente. O silêncio na arquibancada lotada da arena era paralisante. Ninguém piscava.

  Ele olhou para a areia onde havia caído, depois olhou para a minha espada, para a express?o assustada no meu próprio rosto, e soltou uma gargalhada genuína e estrondosa que rebateu nas paredes do castelo.

  — Ah, Igris, meu moleque infernal! — Ele caminhou até mim, ignorando a dor, e colocou as duas m?os calosas pesadamente sobre os meus pequenos ombros. — Você é simplesmente um absurdo! Eu confesso que fiquei assustado por um segundo ali... mas eu n?o poderia estar mais feliz ao ver você me deitar na areia de verdade! Sem magia!

  O sorriso dele diminuiu, e a voz grossa do gigante foi substituída por um tom paternal e carregado de respeito mútuo.

  — Porém, garoto, você tem que entender uma regra de ouro: as técnicas brutas que eu te ensinei aqui, a resiliência mental e os instintos de sobrevivência de um humano... isso vale para a vida toda. A carne apodrece, os Deuses mudam de lado, mas o seu centro de gravidade n?o mente. Nunca deixe que números ou feiti?os visuais apaguem a funda??o da sua base. Eu já te ensinei tudo o que a minha espada sabia, Igris.

  Topázio olhou para as próprias m?os, calejadas por décadas de batalhas.

  — E quer saber de uma verdade? Eu nunca tive um aluno sequer parecido com você. Nem a Princesa Saphira, com aquele talento mágico inato e devastador, me superou nessa velocidade corporal limpa. Você me alcan?ou e engoliu o meu orgulho em quest?o de meses. Você absorveu coisas que a minha gera??o levou vinte anos de sangue para dominar no front de batalha.

  Topázio Arsélia soltou os meus ombros, virou as costas para mim e olhou para os centenas de cavaleiros embasbacados nas arquibancadas de pedra. Ele inflou o peito e rugiu a plenos pulm?es:

  — Por isso, anotem este dia! O Cadete Igris Wolford Heisenberg, aos cinco anos de idade, está oficialmente e inapelavelmente FORMARDO na Cavalaria Pesada de Sentostela! Eu, Topázio Arsélia, a Espada do Rei, declaro Igris como o meu Sucessor de Honra!

  A arquibancada emudeceu por um décimo de segundo antes de explodir em um urro bestial. Milhares de palmas, escudos batendo contra espadas e assobios ensurdecedores engoliram a arena.

  E, no meio daquele caos glorioso, a tela azul do meu Sistema ofuscou a minha vis?o periférica, brilhando como ouro sólido.

  [Aviso de Progress?o Social!]

  Novo Título Pessoal Adquirido: Comandante Honorário da Vanguarda de Sentostela.

  Condi??o Restrita: Este Título só pode ser injetado no Sistema ao receber a sucess?o verbal e oficial em combate aberto de um Comandante-em-Chefe do Reino.

  [Benefícios de Atributos Simulados:]

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  O Jogador recebe um modificador de +10 Pontos de FOR, +20 de DEF e +30 de Vitalidade Extra. (Nota Técnica: Estes pontos adicionais ignoram e quebram o limite do teto atual da sua Classe. S?o 'auras físicas' simuladas pela glória do Título, n?o estatísticas brutas da sua biologia).

  [Penalidades do Título:]

  Devido ao "peso" da aura guerreira que foca na musculatura, o Jogador sofrerá uma leve restri??o neural ao conjurar feiti?os elementais projetados (Magia Ofensiva de Longo Alcance será 15% mais lenta).

  Compensa??o: Recebe a condi??o de Hiper-Afinidade em feiti?os que afetam o seu próprio tecido celular (Magia de Aprimoramento e Revestimento Físico).

  [Efeitos Passivos Permanentes:]

  Aumenta exponencialmente a Resistência a Atordoamentos Físicos.

  Otimiza??o Celular da Barra de Fadiga (A regenera??o de f?lego em combate denso ocorre 2x mais rápido).

  Enquanto eu ainda tentava digerir a parede de texto azul e o b?nus colossal que havia acabado de receber, uma segunda janela — desta vez de um tom Roxo Escuro e vibrante — se cravou violentamente por cima da primeira.

  [AVISO CRíTICO! NOVA FUS?O MATEMáTICA FOR?ADA PELO SISTEMA!]

  Habilidade Extra Passiva Adquirida: SUPER RECUPERA??O!

  Fórmula Biológica de Fus?o: (Recupera??o Base do Nv. 2) + (Redu??o de Fadiga do Título Novo) + (Aura de Vitalidade Alta) + (Resistência Atributiva Maximizada).

  Descri??o Rúnica: A uni?o simbiótica e for?ada desses fatores imunológicos gerou um motor de cura dentro da sua corrente sanguínea. A regenera??o passiva contínua de efeitos negativos (veneno, atordoamento), a reposi??o de Mana Bruta, o extermínio de fadiga e o fechamento/cauteriza??o de ferimentos abertos ou amputa??es parciais é permanentemente acelerada em incríveis +70%.

  Aten??o Mortal: Esta Habilidade n?o tem natureza Divina nem Onipotente. Ela apenas acelera o seu próprio processo celular. Ferimentos fatais de impacto instantaneo (como Decapita??o ou Perfura??o Ventricular Massiva) matar?o o Jogador imediatamente antes que a habilidade possa engatar o processamento. O Jogador morre do mesmo jeito; você apenas dará um pouco mais de trabalho para o Ceifeiro limpar a bagun?a.

  Sorri internamente, fechando as abas piscantes com a mente. A ironia cínica e sombria do Sistema na última frase era a minha velha amiga de Eldória.

  Eu havia recebido mais uma habilidade de ponta da piramide. A Super Recupera??o n?o era um milagre invencível, mas era a engrenagem perfeita que me manteria operando na linha de frente por horas a fio enquanto inimigos comuns ofegavam e desmaiavam. Era o pacote de sobrevivência completo.

  [Time Skip: Aos 7 Anos de Idade]

  Os anos come?aram a se arrastar e escorrer pelos meus dedos. A rotina brutal anestesiou o tempo.

  Eu completei sete anos de idade. Foi a primeira vez, desde a noite de sangue e vidro no palácio de Eldória, que eu sorri de forma pura e despreocupada. O Rei Aquamarine e a Rainha Esmeralda — que nunca me trataram como uma arma política, mas sim como um membro quebrado da matilha que eles precisavam colar — organizaram um banquete caloroso e privado nos suntuosos jardins do palácio para mim.

  Houve bolo de frutas, música de alaúdes tocada de forma suave pelos bardos e até a exibi??o fechada dos famosos fogos de artifício alquímicos de Sentostela. Saphira, com um sorriso convencido no rosto, fez quest?o de conjurar chamas púrpuras no céu noturno escrevendo insultos infantis com magia para me provocar.

  Naquele pátio iluminado, cercado de risadas grossas de generais e da irrita??o divertida de Saphira, eles eram a minha nova família. O vazio ecoante no meu peito foi preenchido.

  Eu definitivamente n?o era mais o "garoto lixo dos Circuitos Verdes". Eu era o cadete prodígio e a sombra intocável da corte de Sentostela.

  Mas a mente humana é trai?oeira. Toda noite, sem falhar uma única vez, quando as tochas eram apagadas e eu fechava os meus olhos no silêncio do meu quarto escuro... a lembran?a afiada da espada prateada da minha m?e estilha?ando ao meio e o som borbulhante do sangue do meu pai na garganta cortada ainda me assombravam, puxando a minha alma de volta para o inferno.

  [Time Skip: Aos 9 Anos de Idade]

  O Rei Aquamarine, astuto como um lobo veterano, percebendo que o Comandante Topázio Arsélia e o campo de treinamento de areia n?o tinham literalmente mais nada a me oferecer, mudou o plano. Ele convocou os melhores generais de brigada, táticos de cerco e instrutores de magia avan?ada do reino apenas para me treinar em segredo nas masmorras do castelo.

  Foi um massacre monótono.

  Nenhum deles conseguiu me imobilizar ou me derrotar em combate justo. A minha For?a corporal estagnou a evolu??o da esgrima terrestre; n?o havia humanos capazes de acompanhar o tempo de rea??o dos meus olhos no Nível 15.

  A única pessoa no raio de mil quil?metros capaz de cruzar espadas com os meus status inflados era Saphira. Com o passar dos anos, gra?as à brutalidade do título de "Visitante", ela já estava num Nível estupidamente mais alto do que o meu.

  Todas as madrugadas, nós esgueirávamo-nos pelas sombras e íamos para a arena subterranea ou ca?ávamos nas beiradas cada vez mais densas da floresta.

  E foi no início do meu nono ano de vida que eu olhei para os olhos prateados dela e pedi um favor sombrio que faria qualquer psiquiatra chorar.

  — Saphira... Lute como ele.

  E ela lutou. Sem pena. Sem hesita??o.

  Durante doze meses insanos, Saphira abandonou o próprio estilo de combate e usou as suas absurdas reservas de mana destrutiva para simular, de forma quase perfeitamente doentia, os movimentos viscerais, o sadismo letal e o controle mágico perverso de Zack Wolford. Ela conjurava quatro, cinco magias simultaneas de supress?o enquanto me atacava sem misericórdia com bast?es pesados pelas minhas costas.

  Nesse inferno controlado, eu foquei em engolir a minha própria arrogancia. Comecei a usar a penalidade da minha classe (Grande Herói) a meu favor. Eu tentava misturar o cast de magia elementar verde com combate corporal ininterrupto. Eu tentava fundir espada e chamas sem paralisar os pés no ch?o.

  E eu falhava. Muito. E de forma humilhante.

  As chamas conjuradas na minha lamina de treino bridge sibilavam e se apagavam toda vez que eu focava demais a aten??o no jogo de pés para evitar a morte. Eu tomava golpes que me arremessavam contra a parede ou rasteiras que me faziam comer areia quando focava a aten??o demais em manter o feiti?o no ar. Era frustrante tentar focar em duas matemáticas diferentes (Corpo e Mana) ao mesmo tempo.

  Mas a frustra??o n?o me derrotou. O meu ódio cimentado era um combustível negro, frio e infinito. A promessa de vingan?a era a única corda grossa que mantinha a minha mente amarrada à realidade e me for?ava a levantar do ch?o, sangrando, repetindo os movimentos milhares de vezes até que a repeti??o se tornasse reflexo medular.

  [Time Skip: Aos 11 Anos de Idade]

  Eu finalmente consegui. A corda arrebentou, mas do lado inimigo.

  Gra?as à Saphira — que se recusou a me ensinar dezenas de magias brilhantes e focou exaustivamente em moldar apenas a essência central do elemento Fogo em mim —, eu alcancei o nirvana da proficiência técnica. A simbiose perfeita.

  Eu aprendi a conjurar e fatiar o ar ao mesmo tempo, sem perder um milímetro de postura, de velocidade ou de peso no corte. Os meus esquecidos "Circuitos Verdes" — que antes eram sinónimo de humilha??o e potência patética na infancia — provaram o seu valor inestimável e oculto no calor do combate letal. O que me faltava em explos?es absurdas (como as de Zack), sobrava em um controle cirúrgico e na reten??o absoluta da mana.

  Eu conseguia manter laminas intensas de fogo verde crepitando ao redor da minha espada, derretendo o ferro inimigo, por horas a fio. Sem esvaziar a minha barra de mana e exaurir o meu núcleo, eternamente blindado pelo motor contínuo da passiva de Super Recupera??o.

  Eu era uma anomalia em Leunders. Eu era um verdadeiro Mago Guerreiro.

  Exatamente, e dolorosamente, aquilo que eu havia prometido e gritado aos meus pais no quintal de casa, tantos anos atrás.

  Topázio acompanhou de longe, nas sombras, os meus últimos testes de resistência na arena fechada. Ele assistia às minhas lutas ininterruptas contra Saphira e contra feras enjauladas da arquibancada escura, balan?ando a grande cabe?a calva em silêncio. Para a mente tática dele, um garoto de onze anos de idade simplesmente n?o deveria ter os olhos e n?o deveria se mover e calcular a morte como um antigo dem?nio da guerra forjado no abismo.

  A verdade nua e crua era uma só: eu o havia superado completamente. Sentostela havia me moldado; eu agora era a lamina mais afiada do seu arsenal.

  [Time Skip: Aos 12 Anos de Idade — O Presente]

  A manh? do meu décimo segundo aniversário raiou sobre a Capital de Sentostela. O céu estava limpo, azul e sem nuvens, marcando o fim absoluto do meu isolamento tático de sete anos.

  O Rei Aquamarine dispensou a guarda de honra e me chamou ao imenso sal?o do trono logo nas primeiras horas do dia.

  A luz que entrava pelos vitrais iluminava o monarca.

  — Você atingiu a idade da responsabilidade e do movimento das pe?as no tabuleiro, Igris Wolford — declarou o Rei, com um orgulho paterno brilhando por trás dos olhos endurecidos. — O seu treinamento prático com os velhos lobos deste castelo e a sua conten??o nas terras de Sentostela terminaram. Hoje.

  Ele desceu os degraus e me entregou um pergaminho com um pesado selo de cera dourada.

  — Eu já organizei toda a burocracia do mundo lá fora. Os papéis de transferência de na??o foram metodicamente forjados, os selos reais assinados e autenticados pelas guildas. Você e a minha filha, Saphira, partir?o em segredo hoje à tarde para cruzar as fronteiras. O objetivo de vocês é ingressar anonimamente na Academia Real Próxia.

  A Academia Próxia de Eldória.

  O meu est?mago afundou em um misto de nostalgia doente e fúria congelada. Eldória. A minha pátria. A terra onde a meritocracia governava a luz, e o sangue dos meus pais manchava a escurid?o. O lugar de onde eu havia fugido, encolhido e chorando de ódio, sete anos atrás.

  Passei a manh? recolhendo o meu passado. Fiz as minhas malas táticas pesadas. Prendi a minha companheira inseparável — a espada larga forjada em puro carvalho negro, agora arranhada por anos de chamas e ossos quebrados — nas costas. Guardei os frascos de po??es e escondi sob a capa o bras?o honorário dourado e reluzente que me conferia autoridade sobre a Vanguarda de Sentostela.

  Quando o sol do meio-dia atingiu o pátio central e eu subi os degraus da suntuosa carruagem de viagem, sentando-me no banco de estofado macio ao lado de Saphira, eu olhei para as minhas próprias m?os enluvadas.

  A crian?a fraca que precisou ser arrancada do ch?o na base do tapa n?o morava mais ali.

  Eu vestia o uniforme prático e escuro, de gola alta, da cavalaria leve e das sombras. As minhas costas estavam retas como uma lan?a. E, no reflexo do pequeno espelho da carruagem, os meus olhos amendoados refletiam n?o mais tristeza ou panico, mas uma calma predatória, anestesiada e letal. A minha mente, que nos primeiros dias de exílio havia sido uma bagun?a caótica de dor, luto e desespero, agora operava como uma intransponível e perfeita fortaleza de gelo.

  A porta de madeira bateu. Fechei os olhos enquanto a carruagem balan?ava e come?ava a se mover lentamente, deixando os grandes port?es de ferro e a abóbada da Barreira Protetora de Sentostela para trás.

  O barulho seco e ritmado das rodas pesadas de madeira batendo contra a estrada de paralelepípedos parecia o tique-taque de um relógio mecanico contando as horas para o fim do mundo.

  A memória mais obscura de todas voltou, rasgando o tempo, vívida, nítida e com cheiro de carne queimada. O rosto macabro do meu tio, Zack Wolford, sorrindo de forma sádica sob o capuz negro antes de conjurar chamas púrpuras e pular pelo teto de vidro despeda?ado do palácio, os dedos sujos com o sangue quente de Shin e Sara.

  "Nós vamos ter outra chance de brincar, meu sobrinho fofo."

  Abri os olhos. O azul frio, amigável e puramente matemático do Sistema estava brilhando suavemente na extrema borda da minha vis?o periférica, operando o controle de biologia do meu corpo no Nível atual.

  A minha for?a brutal estava perfeitamente maximizada. As minhas instabilidades emocionais estavam trancadas. As minhas habilidades rítmicas e mortais estavam forjadas no fogo e no gelo.

  Eldória seria apenas o meu primeiro palco de sangue nesse retorno. O aviso final foi dado no silêncio da minha cabe?a. A ca?ada longa vai come?ar agora.

  O que será que me aguarda debaixo do nariz do rei, no meu retorno à grandiosa capital burocrática da Meritocracia? E quais dem?nios da misteriosa Organiza??o das Trevas estar?o infiltrados, escondidos atrás de máscaras de seda e títulos, entre os nobres pomposos e intocáveis?

  A pesada carruagem negra acelerou o passo, engolindo a distancia rumo às terras manchadas de sangue do Reino da Justi?a.

  [FIM DO CAPíTULO 9]

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